A detecção e a prevenção de patógenos emergentes com potencial pandêmico são questões cruciais para prevenir a transmissão generalizada de doenças. No entanto, ainda representam um desafio para as autoridades de saúde e para a comunidade científica. Estudiosos acreditam que a mobilidade humana é uma questão fundamental na transmissão de agentes infecciosos e o aumento da rede global de transporte impacta diretamente na disseminação de doenças.
Um estudo realizado em conjunto por diversas instituições, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) identificou municípios no Brasil que poderiam compor uma rede sentinela avançada por meio de uma abordagem baseada em dados de mobilidade. Dessa forma, permitiriam a detecção precoce de patógenos circulantes e as rotas de transmissão associadas para a prevenção da transmissão generalizada de doenças.
Neste estudo de modelagem e validação foi compilado um conjunto de dados abrangentes sobre mobilidade intermunicipal. Os dados envolveram transporte aéreo, rodoviário e aquaviário informados por órgãos como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Confederação Nacional do Transporte (CNT) e Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
Desenho do estudo
O algoritmo Ford-Fulkerson foi usado para classificar as 5.570 cidades brasileiras de acordo com a adequação como locais sentinelas. “Assim, conseguimos prever os locais mais adequados para detecção precoce, assim como rastrear a trajetória mais provável de um patógeno recém-surgido”, explicam os pesquisadores.
Também foram obtidos dados genéticos do SARS-CoV-2 de municípios brasileiros durante o estágio inicial da pandemia, de 25 de fevereiro a 30 de abril de 2020. Além disso, foi analisada a introdução do vírus e o surgimento da variante gama em Manaus entre 6 de janeiro e 1º de março de 2021, para fins de validação do modelo.
Vigilância constante
A pesquisa é pioneira ao usar dados de mobilidade humana em um país continental como o Brasil para identificar os locais mais estratégicos para redes de coleta de amostras para identificação e análise genética de patógenos respiratórios. No Brasil, essa responsabilidade cabe à Rede Sentinela, uma estratégia coordenada pelo Ministério da Saúde para monitorar e entender a propagação de patógenos e variantes. Para a vigilância de síndrome gripal, atualmente há 310 unidades de coleta em 199 municípios, cobrindo cerca de 52% da mobilidade do País.
Achados
O resultado do trabalho mostrou que somente os voos transportaram 79,9 milhões de passageiros anualmente dentro do Brasil durante 2017 e 2022, com picos sazonais ocorrendo no final da primavera e no verão. As redes rodoviárias e fluviais tiveram uma capacidade máxima de 78,3 milhões de passageiros semanalmente em 2016. Analisando os 7.746.479 caminhos mais prováveis de origem, 3.857 cidades cobrem totalmente o padrão de mobilidade de todos os 5.570 municípios no Brasil. Destas, 557 cobrem 6.313.380 (81,5%) dos padrões de mobilidade no estudo.
De acordo com os pesquisadores, uma redistribuição estratégica dessas unidades da Rede Sentinela elevaria a cobertura para 70%, sem aumentar o número total de pontos. Assim, seria possível priorizar cidades que contribuirão para a detecção antecipada da doença na fase inicial de disseminação.
“Ao fornecer pistas essenciais para vigilância eficaz de patógenos, nossos resultados têm o potencial de informar a política de saúde pública e melhorar os esforços futuros de resposta a pandemias”, pontuam os pesquisadores. O estudo ‘Human mobility patterns in Brazil to inform sampling sites for early pathogen detection and routes of spread: a network modelling and validation study’ foi publicado no periódico The Lancet em agosto de 2024.